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sábado, 12 de novembro de 2011

Rev Saúde Pública 2001;35(2):150-158
www.fsp.usp.br/rsp
Prevalência do uso de drogas e
desempenho escolar entre adolescentes*

Beatriz Franck Tavaresa, Jorge Umberto Bériab e Maurício Silva de Limaa, c
aDepartamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas.
Pelotas, RS, Brasil. bDepartamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal de Pelotas. Pelotas, RS, Brasil. cFaculdade de Medicina da Universidade Católica de Pelotas.
Pelotas, RS, Brasil


Transtornos relacionados ao uso de
substâncias psicoativas,
epidemiologia.# Adolescência.#
Estudantes.# Baixo rendimento
escolar.# Comportamento do
adolescente. Prevalência. Estudos
transversais. Fatores
socioeconômicos. Fatores
epidemiológicos. Álcool. Tabaco.
Maconha. Cocaína. Ansiolíticos. –
Abuso de substâncias. – Drogas.
Desempenho escolar.

Objetivo
Avaliar a prevalência do uso de drogas entre adolescentes de escolas com segundo grau.
Métodos
Com base em um delineamento transversal, foi realizado estudo em 1998 , em
Pelotas, RS. Um questionário anônimo, auto-aplicado em sala de aula, foi respondido
por uma amostra proporcional de estudantes com idade entre 10 e 19 anos,
matriculados no primeiro grau (a partir da 5a série) e no segundo grau, em todas as
escolas públicas e particulares na zona urbana do município que tinham segundo
grau. Realizou-se até três revisitas para aplicação aos alunos ausentes.
Resultados
Foram entrevistados 2.410 estudantes e o índice de perdas foi de 8%. As substâncias
mais consumidas, alguma vez na vida, foram álcool (86,8%), tabaco (41,0%), maconha
(13,9%), solventes (11,6%), ansiolíticos (8,0%), anfetamínicos (4,3%) e cocaína
(3,2%). Os meninos usaram mais do que as meninas maconha, solventes e cocaína,
enquanto elas usaram mais ansiolíticos e anfetamínicos. Uso no mês, uso freqüente,
uso pesado e intoxicações por álcool foram mais prevalentes entre os meninos. Após
controle para fatores de confusão, permaneceu positiva a associação entre uso de
drogas (exceto álcool e tabaco) e turno escolar noturno, maior número de faltas à
escola no mês anterior e maior número de reprovações escolares.
Conclusões
A prevalência de experimentação de drogas em adolescentes escolares é alta, sendo
importante detectar precocemente grupos de risco e desenvolver políticas de prevenção
do abuso e dependência dessas substâncias.

INTRODUÇÃO
Consumir drogas é uma prática humana, milenar e
universal. Não existe sociedade que não tenha
recorrido ao seu uso, em todos os tempos, com
finalidades as mais diversas. A partir dos anos 60, o
consumo de drogas transformou-se em uma
preocupação mundial, particularmente nos países
industrializados, em função de sua alta freqüência e
dos riscos que pode acarretar à saúde. A adolescência
é uma etapa do desenvolvimento que grandes
preocupações suscita quanto ao consumo de drogas,
pois os anos adolescentes constituem uma época de
exposição e vulnerabilidade a elas.5
Na América Latina, estudos que investigaram o uso
de drogas por adolescentes por meio de questionários
anônimos auto-aplicados,1,2,16,17 indicam que o álcool
é a substância mais consumida, sendo as taxas mais
elevadas no sexo masculino.
No Brasil, inquéritos epidemiológicos têm sido
realizados com objetivo de estudar as prevalências de
uso de drogas.9,11,14 Além do álcool e do fumo, os
indicadores disponíveis apontam para uma
prevalência de uso de dois grupos de drogas dos quais
pouco se fala nos países industrializados: os solventes
e os medicamentos.
No Brasil, estudos anteriores a 1986 são de difícil
comparação entre si, por empregarem metodologias
bastante diferentes, amostragens mal definidas e
técnicas de análise estatística às vezes duvidosas.5
A partir de 1986, teve início uma segunda geração de
investigações, pois o uso de um questionário
elaborado pela Organização Mundial da Saúde
(OMS) e adaptado para o Brasil possibilitou
padronizar os estudos e comparar os resultados
obtidos.

Estudos realizados entre escolares de primeiro e
segundo graus e entre estudantes universitários3,9,11,14
mostram, consistentemente, nas diversas regiões do
País, que o álcool é a droga mais utilizada, seguido
pelo tabaco. Os solventes se mantêm como os mais
comuns no terceiro mundo, após álcool e tabaco, enquanto
que nos países desenvolvidos a maconha ocupa
o terceiro lugar.18
O Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre
Drogas Psicotrópicas) tem realizado inquéritos
periódicos com adolescentes escolares em 10 capitais
brasileiras. Quatro levantamentos nacionais (1987, 1989,
1993 e 1997) mostraram prevalências de uso na vida de
drogas (exceto álcool e tabaco) sempre maiores no sexo
masculino, quando comparado ao feminino, tendo sido
as taxas de 26,8% e 22,9%, respectivamente, em 1997.11
Dados referentes ao uso de drogas por estudantes
da rede estadual de Porto Alegre, RS, em 1997,
mostraram que pela primeira vez em dez anos a
maconha ultrapassa os solventes, ocupando o terceiro
lugar, após o álcool e o tabaco.11
Em Ribeirão Preto, SP, um estudo transversal em
1.025 escolares da rede pública e privada, utilizando
questionário anônimo auto-aplicado,14 mostrou que o
uso na vida de drogas ilícitas é maior na burguesia,
enquanto que o de álcool é maior no proletariado.
Mostrou ainda que todas as taxas de uso crescem
com a idade, sendo o consumo maior no sexo
masculino, exceto para os medicamentos.
O presente estudo teve por objetivo estimar as prevalências
de uso de drogas em uma amostra representativa
dos adolescentes que freqüentavam todas as
escolas públicas e particulares que tinham segundo
grau na zona urbana de uma cidade de porte médio
(Pelotas, RS). Também foi investigada a distribuição do
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Uso de drogas e desempenho escolar
Tavares BF et al.
uso de drogas em relação a fatores sociodemográficos,
bem como sua relação com o desempenho escolar.
MÉTODOS
Na pesquisa, realizada de agosto a novembro de
1998, utilizou-se um delineamento transversal. Pelotas,
cidade onde se realizou o estudo, localiza-se na região
sul do Brasil, no Estado do Rio Grande do Sul, distante
cerca de 240 km da capital do Estado. A população
urbana no ano de 1996 era de 282.713 habitantes.
A amostragem aleatória foi sistemática, estratificada
(turnos diurno e noturno, primeiro e segundo graus,
escolas particulares e públicas) e com probabilidade
proporcional ao tamanho (número de alunos) de todas
as escolas da zona urbana de Pelotas, que tinham o
segundo grau. O universo amostral constituiu-se de
24 escolas, sendo 12 unidades estaduais, nove
particulares, duas federais e uma municipal, com 27.990
alunos matriculados no primeiro grau (a partir da
quinta série) e no segundo grau, o que corresponde
aproximadamente à faixa etária de 10 a 19 anos.
O tamanho da amostra foi calculado para um estudo
mais amplo sobre o mesmo tema com o programa Epi
Info, versão 6.02. Estimou-se a prevalência de uso na
vida de drogas de 20% nos não expostos, nível de
confiança de 95%, poder estatístico de 80%, risco
relativo de 2 e prevalência da exposição (morbidade
psiquiátrica e eventos estressantes) de 3%.
Acrescentou-se ao número final 30% para fatores de
confusão e 10% para perdas, resultando num total de
1.960 pessoas.
Foi feito sorteio sistemático de cem turmas que
contribuíriam com 20 alunos cada uma, perfazendo um
total de 2 mil alunos. Sendo o tamanho das turmas
bastante variável, essa diferença foi compensada pela
ponderação na análise. Apenas uma escola, cujo
número total de alunos era 33, não teve nenhuma de
suas turmas incluídas na amostra.
Utilizou-se um questionário anônimo auto-aplicado,
com 128 questões, a maioria pré-codificada. Para dados
sobre o uso de drogas utilizou-se o modelo de
instrumento proposto pela OMS (1980) e adaptado no
Brasil por Carlini-Cotrim et al.7 A aplicação foi feita
coletivamente, em sala de aula, sem a presença do
professor, e os questionários recolhidos em envelope
pardo. Os aplicadores retornaram às escolas, em até
três ocasiões subseqüentes, para aplicar o
questionário aos alunos que estavam ausentes. Os
questionários de retorno eram aplicados em uma sala
disponível na escola, seguindo os procedimentos
estabelecidos. Para garantir o anonimato, o envelope
com os questionários da turma era levado nos retornos,
permitindo que os alunos depositassem seu questionário
em meio aos outros, no mesmo envelope.
As variáveis estudadas foram as seguintes:
Variável dependente
Padrão de uso não-médico de psicotrópicos (álcool,
tabaco, solventes, ansiolíticos, anfetamínicos,
anticolinérgicos, barbitúricos, maconha, cocaína,
opiáceos, alucinógenos, orexígenos e outros).
Para uso de drogas foram investigadas as seguintes
categorias, de acordo com a classificação da OMS:
• uso na vida: usou pelo menos uma vez na vida;
• uso no ano: usou pelo menos uma vez nos 12
meses anteriores à pesquisa;
• uso no mês: usou pelo menos uma vez nos 30 dias
anteriores à pesquisa;
• uso freqüente: usou seis vezes ou mais nos 30
dias anteriores à pesquisa;
• uso pesado: usou 20 vezes ou mais nos 30 dias
anteriores à pesquisa.
Variáveis independentes
• Classe social: determinada pelo critério Abipeme
(Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa
de Mercado),13 reformulado em 1991, que considera
itens de consumo e grau de escolaridade do chefe
da família. Quanto a este último, 638 alunos
informaram que o chefe da família havia feito curso
superior. Destes, 14 especificaram que o curso não
havia sido completado e 74 especificaram curso
completo. Os restantes, não especificados, foram
considerados como tendo completado o curso;
• demográficas: idade, sexo e cor;
• desempenho escolar: freqüência do aluno à escola
n

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